O poeta magricela fazendo pose de detetive de filme noir na foto aí ao lado se chama Roberto Bolaño. É um bom sujeito, morreu faz tempo, mas está me dando mais trabalho do que devia nas últimas semanas. Devo – espero – escrever melhor sobre ele nos próximos dias, mas por enquanto fica aqui a tradução de um poema muito bom dele chamado El burro.
O Mario Santiago mencionado no texto foi um poeta que Bolaño conheceu na Cidade do México nos anos 70, quando tinham uns 20 anos. Os dois lideraram um grupo de escritores obscuros – metade movimento literário, metade gangue de rua – que invadiam leituras de poetas famosos para declamar seus próprios textos e se interessavam mais por boxe e sinuca do que por literatura propriamente dita. Não demorou muito, Bolaño e Santiago caíram fora do México e passaram as duas décadas seguintes perambulando pelo mundo, escrevendo compulsivamente um para o outro e um sobre o outro, numa daquelas belas amizades literárias, até Santiago morrer subitamente, em 1998, atropelado por um caminhão.
O burro
Às vezes sonho que Mario Santiago
vem me buscar com sua moto negra.
E deixamos a cidade para trás e à medida
que as luzes vão desaparecendo
Mario Santiago me diz que se trata
de uma moto roubada, a última moto
roubada para viajar pelas pobres terras
do norte, em direção ao Texas,
perseguindo um sonho inominável,
inclassificável, o sonho de nossa juventude,
ou seja, o sonho mais valente de todos
os nossos sonhos. E dessa maneira
como negar-me a montar a veloz moto negra
do norte e sair voado por aqueles caminhos
que antanho percorreram os santos do México,
os poetas mendicantes do México,
os sanguessugas taciturnos de Tepito
ou da colônia Guerrero, todos na mesma trilha,
onde se confundem e mesclam os tempos:
verbais e físicos, o ontem e a afasia.
E às vezes sonho que Mario Santiago
vem me buscar, ou é um poeta sem rosto,
uma cabeça sem olhos, boca ou nariz,
apenas pele e vontade, e eu sem perguntar nada
subo na moto e partimos
pelos caminhos do norte, a cabeça e eu,
estranhos tripulantes embarcados numa rota
miserável, caminhos borrados pela poeira e a chuva,
terra de moscas e lagartixas, matagais ressecados
e tempestades de areia, único teatro concebível
para nossa poesia.
E às vezes sonho que o caminho
que nossa moto ou nossa ânsia percorre
não começa em meu sonho e sim no sonho
de outros: os inocentes, os bem-aventurados,
os mansos, os que para nossa desgraça
já não estão aqui. E assim Mario Santiago e eu
saímos da Cidade do México que é o prolongamento
de tantos sonhos, a materialização de tantos
pesadelos, e nos embrenhamos pelos estados
sempre rumo ao norte, sempre pelo caminho
dos coiotes, e nossa moto então
é da cor da noite. Nossa moto
é um burro negro que viaja sem pressa
pelas terras da Curiosidade. Um burro negro
que se desloca pela humanidade e a geometria
destas pobres paisagens desoladas.
E o riso de Mario ou da cabeça
saúda os fantasmas de nossa juventude,
o sonho inominável e inútil
da valentia.
E às vezes creio ver uma moto negra
como um burro se afastando pelos caminhos
de terra de Zacatecas e Coahuila, nos limites
do sonho, e sem chegar a compreender
seu sentido, seu significado último,
compreendo não obstante sua música:
uma alegre canção de despedida.
E talvez sejam os gestos de valor os que
nos dizem adeus, sem ressentimento nem amargura,
em paz com sua gratuidade absoluta e com nós mesmos.
São os pequenos desafios inúteis – ou que
os anos e o hábito consentiram
que crêssemos inúteis – os que nos saúdam,
os que nos fazem sinais enigmáticos com as mãos,
no meio da noite, de um lado da estrada,
como nossos filhos queridos e abandonados,
criados sozinhos nestes desertos calcáreos,
como o resplendor que um dia nos atravessou
e que havíamos esquecido.
E às vezes sonho que Mario chega
com sua moto negra no meio do pesadelo
e partimos rumo ao norte,
rumo aos povoados-fantasma onde moram
as lagartixas e as moscas.
E enquanto o sonho me transporta
de um continente a outro
através de uma ducha de estrelas frias e indolores,
vejo a moto negra, como um burro de outro planeta,
partir ao meio as terras de Coahuila.
Um burro de outro planeta
que é a ânsia desbocada de nossa ignorância,
mas que também é nossa esperança
e nosso valor.
Um valor inominável e inútil, é claro,
mas reencontrado nas márgens
do sonho mais remoto,
nos fragmentos do sonho final,
na trilha confusa e magnética
dos burros e dos poetas.
4 Comentários
Maio 4, 2007 às 12:33 pm
Gostei do cara. Palavras simples e diretas rumo ao infinito.
Maio 4, 2007 às 12:54 pm
caraca. que bonito. bolaño comanda.
Maio 4, 2007 às 2:12 pm
Li uma coluna de um amigo dele dos tempos de Barcelona, não sei se no Globo ou JB, em que o sujeito descreve Bolaño como um misto de sensível escritor e criança crescida. Empolgava-se em igual medida discutindo os destinos de célebres personagens literários e participantes do Big Brother. E, à exemplo do Guilherme, não tinha TV à cabo em casa porque temia ser escravizado pela telinha.
Junho 15, 2007 às 7:03 pm
Li Noturno do Chile de Bolaño. Eu o considero um gênio. Sua narrativa , poética e em prosa, possui uma tristeza e uma infinitude de quem é íntimo das qualidades de um grande escritor.