Abril 22, 2007...3:44 am

Cartola

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cartolaAndam falando muito mal de “Cartola”. O documentário já foi acusado de quase todos os pecados possíveis – ser pouco informativo, confuso, mais interessado em inovações estéticas do que na história do biografado. No fim da sessão, esbarramos com uma espectadora particularmente crítica, que respondeu à inocente pergunta tradicional da saída do cinema (“e aí, gostou?”) com uma expressão de enfado olímpico e a sentença implacável: “Tenho sérias críticas ao roteiro”. Eu, que ainda tentava me recuperar da cena em que Cartola canta “O mundo é um moinho” para o pai, saí à francesa para o banheiro mais próximo.

“Cartola” é mesmo meio desajeitado. A preocupação de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda em fugir das convenções do documentário biográfico faz com que o filme seja mais uma colagem de imagens e sons do que uma reconstituição jornalística da trajetória do compositor. Mas, se essa decisão realmente provoca momentos confusos (e não são poucos), também alcança nuances que um roteiro convencional dificilmente captaria, como na seqüência que mostra a absorção de As rosas não falam pela cultura popular: a música é executada sucessivamente por Cartola, pelo príncipe dos cafonas Altemar Dutra e por um inconfundível realejo peruano da Carioca.

Mas toda discussão teórica soa barroca diante da força das imagens de arquivo reunidas no filme. É uma supresa atrás da outra: Madame Satã falando sobre os malandros da Lapa; Carlos Cachaça fazendo força para não enrolar a língua; um Zé Keti muito gaiato reclamando a paternidade do apelido de Paulindo da Viola; o próprio Paulinho (Paulo Cesar?), ainda garoto, dedilhando um violão ao lado de Cartola. Sem falar, claro, nas imagens do protagonista: com o pai; andando pelas ruelas da Mangueira; servindo cafezinho para o Ministro da Agricultura; e, num dos pontos altos do filme, cantando Nós dois para Dona Zica, uma cena que resume os anos de idas e vindas do casal com mais simplicidade e beleza do que qualquer blablablá documental seria capaz:

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