Março 19, 2007...12:37 am

Alice

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Aviso de utilidade pública: a Armazém Cia de Teatro está comemorando 20 anos com uma mostra de cinco peças do repertório na Fundição. A primeira da lista, Alice através do espelho, encheu tanto que teve a minitemporada prorrogada até semana que vem. Não deixem de ir.

Já tinha visto Alice lá pelos idos de 2001, mas aproveitei o domingo modorrento para ver de novo. É incrível o que eles conseguem fazer com o espaço cênico da Fundição. Quem já foi lá sabe que o lugar não é exatamente uma arena. É uma sala pequena, mas, em Alice, vira um labirinto por onde a platéia acompanha – literalmente – o desenrolar da história, percorrendo os cenários junto com os atores. Não quero estragar as surpresas, mas basta dizer que a peça começa com o público atravessando um espelho.

A Armazém homenageia Lewis Carrol da melhor forma possível: traindo-o à vontade. A adaptação mistura No País das Maravilhas e Através do Espelho, usa o autor como personagem e ainda explora sua famosa predileção por garotinhas numa passagem hilária. Mas é só na última cena que a verdadeira protagonista da peça se revela. E não é Alice, nem Carrol; é a imaginação – a imaginação do autor, da personagem, da Armazém e a do espectador, que passa uma hora e meia numa salinha escura na Lapa acreditando piamente estar em outra dimensão.

A mostra da Armazém tem sessões de quinta a domingo, sempre às 20h (programação completa no site). Até o fim de maio, ainda vêm por aí Pessoas invisíveis, adaptada dos quadrinhos de Will Eisner; a imperdível Esperando Godot; Casca de noz, baseada na obra de Ítalo Calvino; e a excelente versão deles para Toda nudez será castigada, apresentada no libreto da mostra por um belo texto do diretor Paulo de Moraes:

O que Herculano e Geni vivenciam em “Toda nudez será castigada” é o que qualquer relação amorosa, de uma ou outra maneira, já experimentou: que amar é, também, esperar pelo outro que virá ou não virá, que me reconhecerá ou não me reconhecerá. E esperar pelo outro, o que parece um intervalo, um momento de vácuo, uma saudade, é, enfim, o que se chama “vida” – cheia de um misto de dúvidas, pequenas traições e uma imensa solidão.

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