Não é de hoje que os produtos brasileiros fazem sucesso lá fora. A grande e notória aceitação de artigos de luxo – e outros nem tanto – como o travesti, as havaianas e a depilação com cêra, prova isso.
Assim mesmo, não deixa de surpreender que o empreendedor religioso Bispo Macedo esteja expandindo seus domínios em diversas partes do planeta. A Igreja Universal do Reino de Deus é a comunidade-instituição escolhida por parcela crescente da população nacional para expurgar seus demônios cotidianos, como desemprego, problemas afetivos e doenças, através do sacrifício pessoal – leia-se, uma cota de seus rendimentos, que deve ser proporcional ao sacrifício que o indivíduo intenciona fazer e que, por sua vez, deve corresponder ao do problema em questão.
A princípio, não surpreende que ela alcance países subdesenvolvidos, como nossos irmãos latino-americanos, asiáticos e africanos, de padrões culturais e econômicos semelhantes, os quais seriam propícios à difusão dessa modalidade de fé da era mercantil. Cita-se: a baixa erudição geral, preconceitos ainda não superados (como o lugar da mulher na sociedade); pouco interesse por assuntos metafísicos e existenciais; e a inocência popular perante a figura do “charlatão”. Aliados às mudanças de comportamento e o crescente esvaziamento da fé católica, esses fatores compõem a explicação que se dá, por ora, do “fenômeno Universal”.
No entanto, não se dá com a mesma naturalidade o aparecimento da congregação do Bispo na Inglaterra, na Itália, no Japão e na Alemanha, onde, se supõe, o desenvolvimento econômico coloca suas populações numa espécie de elite cultural, de caráter mais “humanista” (que disputa espaço, no caso do Japão, com a forte cultura tradicional), que seria incompatível com uma “seita do pobre inculto e ingênuo”.
Poderia-se dizer também que as filiais estariam atendendo à comunidade brasileira espalhada pelo mundo. Errado. Basta acessar a página principal da Universal britânica para se perceber a diferença de orientação das campanhas de lá. Menos espetáculo da bizarrice e do grotesco de possessões e exorcismos (que remetem ao arcaísmo do Antigo Testamento), e uma abordagem mais mundana, moderna e focada na felicidade pessoal, tudo preparado para um leitor alfabetizado e “culto”. Troca-se a catarse de uma sociedade caótica e preconceituosa pela leitura civilizada de um livro de auto-ajuda, como pode ser visto na seção “loja virtual” da UCKG.
Por lá, as “pombagiras” também acontecem, mas não levam esse nome. A campanha “em cartaz” no site conclama as “mulheres que não estão felizes no Dia das Mães (porque não conseguem conceber)” a se entregarem a Deus mas, ao mesmo tempo, ao tratamento clínico para infertilidade. É muito mais sutil, sem mencionar demônios, apenas a “cura pela oração”.
Voltando à loja virtual, o livro em destaque revela outra nuance. O foco também é na mulher, mas uma mulher “desenvolvida”. Afinal, em um produto entitulado “Better than a New Pair of Shoes” (“Melhor do que um Novo Par de Sapatos”), certamente o autor pressupõe o poder aquisitivo e o hábito consumista de seu público.
Aqui, o problema do fiel é conseguir dinheiro e escapar do demônio. Lá, é como gastá-lo bem e dar “uma mãozinha” no que médicos e cientistas não conseguem resolver sozinhos. São “semelhanças diferentes”. Afinal, “abismo” é só uma outra palavra para “nuance grande”. Por isso, no final das contas, sexta-feira, continua sendo dia da Sessão do Descarrego.
(Agradeço a Eduardo Rodrigues por ter me repassado os links dos sites internacioais da IURD, QUE ELE RECEBEU VIA EX-BLOG DO CESAR MAIA)
2 Comentários
Março 19, 2007 às 7:30 am
Paschoal,
sabe que eu tinha visto símbolo do coração com a pomba branca no meio aqui e não me liguei que podia ser o Bispo Macedo? Eles aqui se apresentam como centro de ajuda, mas o nome é a tradução literal de Igreja Universal do reio de Deus pro Alemão. O melhor é que no pé da página, e é aí que ele deixa escapar que a coisa é brasileira (o site não tem um erro de gramática, pedi pra minha chefe aqui conferir e ela disse que está muito bem escrito), é um link escrito Igreja na TV. Assim em Português mesmo.
Março 19, 2007 às 12:06 pm
então eles são tipo um “JohRei”, por aí.