Março 11, 2007...3:49 pm

Pós-orgia transestética

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baudrillardNa edição de hoje do caderno Mais!, dedicada ao recém-falecido Jean Baudrillard, o físico americano Alan Sokal relembra o trote que aplicou na comunidade acadêmica do país há 11 anos. Na época, Sokal publicou na prestigiosa revista Social Text o ensaio Transgredindo as Fronteiras – Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica, que, como indica o título, não passava de uma colagem sem sentido de clichês e jargões intelectualóides.

Sokal queria provar, numa tacada, a permissividade da academia com a ostentação intelectual, o vazio do discurso empolado de pensadores contemporâneos como Deleuze, Guattari e Baudrillard, e a incapacidade da filosofia pós-moderna de “alcançar um conhecimento objetivo das coisas”, como disse à Folha.

Se o último ponto não pode ser atribuído apenas aos pós-modernos – o “conhecimento objetivo das coisas” é uma espécie de Graal da filosofia – e o segundo é apenas uma opinião bastante discutível, Sokal parece ter ao menos alcançado sua meta de expor o ridículo dos critérios literários da academia. O artigo não despertou qualquer desconfiança quando foi publicado e a controvérsia que se seguiu à revelação do embuste reacendeu a velha discussão sobre o hermetismo da prosa acadêmica. De um lado, leitores enfastiados com o excesso de referências cifradas e a terminologia altamente especializada (quando não francamente picareta). De outro, autores que se recusam a “emburrecer” seus textos para a compreensão das massas.

Professor de literatura da Universidade de Columbia, David Damrosch argumenta, num artigo recente, que o problema dos acadêmicos é que não escrevem para o público, e sim uns para os outros:

O problema não é que acadêmicos “não sabem escrever”, como costuma se dizer, mas que estamos tipicamente engajados no que os estudiosos da Renascença conhecem como “panelinha literária”. Na Inglaterra do século XVI, por exemplo, pequenos grupos de aristocratas como Sir Philip Sydney, a irmã dele, Mary Herbert, e seu círculo compunham poemas para entretenimento mútuo, fazendo-os circular em privado de uma propriedade rural a outra. Estudiosos de hoje podem atingir um círculo de certa forma mais amplo, mas a maior parte da prosa acadêmica está inserida num diálogo contínuo entre uma panelinha de especialistas com interesses semelhantes e um histórico de debates em comum.

Sokal e Damrosch à parte, nenhum protesto contra a enrolação acadêmica é tão eficiente quando o Fabuloso Gerador de Lero-Lero, que certa vez usei num exercício da saudosa aula de Comunicação & Marketing sobre o tema “Liderança”. Bastou acionar a admirável engenhoca virtual e inserir os termos “líder” e “liderança” em pontos estratégicos do texto. Não guardei o resultado, mas refiz o exercício agora e saiu algo parecido:

O empenho em analisar o comprometimento entre as equipes afeta positivamente a correta previsão do sistema de formação de quadros que corresponde às necessidades. Percebemos, cada vez mais, que uma liderança eficiente maximiza as possibilidades por conta das novas proposições. O cuidado em identificar pontos críticos na valorização de fatores subjetivos agrega valor ao estabelecimento dos procedimentos normalmente adotados. Assim mesmo, o bom líder maximiza as possibilidades por conta dos níveis de motivação departamental.

Antes do fim daquele semestre, a aula de Comunicação & Marketing foi devidamente abandonada, em troca de uma peregrinação mambembe a Machu Picchu. Mas o protesto estava feito.

P.S. Como o conteúdo da Folha é reservado a assinantes, segue a transcrição da entrevista com Alan Sokal:

O JARGÃO INCOMPREENSÍVEL

O físico Alan Sokal relembra seu ataque bombástico aos pós-modernos, 11 anos atrás

Em 1996, o físico americano Alan Sokal provocou uma enorme turbulência no meio intelectual, sobretudo entre os chamados pós-modernos, ao pregar uma peça na revista “Social Text”. Ele enviou à revista de ciências humanas -afinadas com essa linha teórica- um texto sem pé nem cabeça, mas que se servia de um pesado linguajar acadêmico, a começar pelo título: “Atravessando as Fronteiras – Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica”.
Seu objetivo era provar que obras de autores como Gilles Deleuze, Félix Guattari e Julia Kristeva eram pouco rigorosas, além de todos, segundo Sokal, serem avessos à possibilidade de alcançar um conhecimento objetivo das coisas.

Meses depois, revelaria o embuste, que acabaria por desenvolver no livro “Imposturas Intelectuais” (ed. Record), escrito em parceria com o também físico Jean Bricmont. Onze anos depois da celeuma, Sokal fala à Folha sobre o que mudou desde então e compara os “estilos” de Baudrillard, Deleuze e Kristeva. (MARCOS FLAMÍNIO PERES)

FOLHA – Como o sr. avalia o caso “Social Text”, passados 11 anos? O que mudou hoje?

ALAN SOKAL - Acredito que o escândalo em torno da publicação de meu artigo paródico na “Social Text” – e, mais tarde, a publicação de meu livro “Imposturas Intelectuais”, em co-autoria com Jean Bricmont -, teve um efeito salutar, pois estimulou o debate sobre o abuso do jargão por alguns pós-modernistas proeminentes. Estudantes e professores não ficam mais intimidados em dizer “não entendo isso. O que de fato isso significa?”.

FOLHA – O que o sr. critica na obra e nos textos de Baudrillard?

SOKAL - Muitos dos textos dele são escritos em um estilo pomposo que parece ser profundo, mas cujo significado preciso (no caso de haver algum) está longe de ser claro. Bricmont e eu concluímos nossa análise dos abusos de Baudrillard afirmando que “se encontram nas obras dele uma profusão de termos científicos, usados com displicência em relação a seus significados, e, acima de tudo, em um contexto em que são claramente irrelevantes. [...] Além disso, a terminologia científica vem misturada com um vocabulário não-científico, que é empregado com igual falta de rigor”.

FOLHA – Em que Baudrillard comete imposturas? Eram melhores ou piores que as de Deleuze e Kristeva?

SOKAL - As imposturas são de vários tipos, então é difícil estabelecer uma ranking unidimensional de acordo com o “grau de impostura”. Baudrillard escreve sentenças pomposas repletas de terminologia supostamente científica, que são ao mesmo tempo banalidades travestidas de profundidades e totalmente sem sentido. O estilo de Deleuze é similar, mas com a pretensão de ser uma profunda contribuição à filosofia. O estilo de Kristeva é menos frenético, mas ela intimida seu leitor com fatos altamente técnicos tirados da teoria ou análise matemáticas – que, posteriormente, se mostram irrelevantes para os temas (por exemplo, a linguagem poética).

FOLHA – A “invasão” de pensadores franceses, como Baudrillard, sempre foi vista com restrição em alguns círculos acadêmicos dos EUA. O sr. se coloca entre eles?

SOKAL - Para mim, as idéias não têm nacionalidade. Boas idéias devem ser aceitas não importa de onde venham; más idéias devem ser rejeitadas, não importa de onde venham. A nacionalidade de um autor é irrelevante.

5 Comentários

  • sem recorrer a epistemologias teutônicas, ou entropias pós-foucaultianas, me orgulho de ter sido a única mão humana a exceder a capacidade de tão fabulosa máquina, em meu trabalho do 1o período de faculdade, para a cátedra “história e comunicação”:

    “…dessa forma, podemos comprovar que, de maneira cíclica, a comunicação modifica a história, que modifica a comunicação, e vice-versa.”

    os 7 pontos mais merecidos da minha vida.

  • Tudo bem, tudo bem. Mas me reservo ao direito de protestar contra os cortes desnecessários feitos na minha monografia.Era a única oportunidade da vida que eu teria de usar a palavra ALHURES. E, ainda assim, fui censurada por entusiastas da linguagem “objetiva”.

  • esse trecho do trabalho do victor tinha que ser gravado no portal de entrada da eco, em latim.

    e, juju, “alhures” é legal, mas quero ver usar a palavra “nenhures”. isso sim é um desafio.

  • “alhures” não é nenhuma moleza. o único cara que faz uso comum e corrente do vacábulo é ninguém menos do que zé bonitinho, o verdadeiro homem da palavra fácil. vai encarar?

  • eu tentei. mas fui censurada.
    vou entrar pra um mestrado e usar “alhures” e “nenhures” no mesmo parágrafo. mas o som de alhures é muito melhor


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