Dizem que nunca houve missas tão concorridas no sistema carcerário americano quanto aquelas realizadas durante as muitas passagens de James Brown pelos xilindrós do país. Temente a Deus, ao Diabo, e a todas as circunstâncias misteriosas que conduzem de um ao outro, o Pai do Soul pagava os pecados animando os serviços religiosos onde quer que estivesse trancafiado.
Assim foi sua passagem pela Terra, encerrada, com o espalhafato que lhe era peculiar, nesta madrugada de Natal, aos 73 anos. As bobagens que fazia (e não eram poucas: bebia demais, drogava-se demais, batia em mulher – e sofria horrores com tudo isso), Brown exorcizava no palco: até o fim, apresentou-se quase todo dia, comandando espetáculos orgiásticos que duravam horas, honrando o epíteto que cunhou para si no início da carreira: O Homem Mais Trabalhador do Show Business.
Brown começou cantando gospel em igrejas e reformatórios. Desde a primeira gravação, Please please please, de 1956, o Senhor Dinamite destacou-se dos músicos de sua geração pela voz eletrizante, o suingue incansável e a impressionante capacidade de fazer até o maior dos filisteus sacudir a carcaça aos primeiros acordes de seus pancadões.

As digitais de Brown estão espalhadas por toda a música popular da segunda metade do século XX. Rap, funk, soul, R&B – não há um estilo dançante que não tenha algo do baixinho enfezado que passou as últimas décadas tocando fogo nas pistas de dança. O movimento pelos direitos raciais também deve muito ao sujeito que, em pleno 1968, tinha peito de exigir da multidão: “Say it loud – I’m black and I’m proud!”.
Um dos truques preferidos de Brown era encerrar os shows com a entrada em cena de um de seus assistentes, que o cobria com uma reluzente capa vermelha e o retirava do palco, para onde o Rei do Soul só voltava se ouvisse os pedidos de bis lá dos bastidores.
Dessa vez, ao que parece, não vão deixar o homem voltar para o bis. Mas seu espírito se balançará entre os dançarinos sempre que alguém gritar “I feel good!” numa pista de dança outra vez.
4 Comentários
Dezembro 26, 2006 às 10:23 am
eu vi o homem ao vivo em 2004, no hyde park. aleluia!
Dezembro 26, 2006 às 10:54 am
uma amiga contou que viu em londres também, em 2000 ou 2001. disse que o palco parecia uma festa, uns 30 músicos e dançarinos espremidos, e ele no meio se esgoelando.
Dezembro 26, 2006 às 2:28 pm
a new yorker republicou no site um perfil gigantesco do brown, de 2002. tem umas 20 páginas, mas vale tirar um tempo pra ler.
http://www.newyorker.com/fact/content/articles/020729fa_fact1
“Speech is inadequate, so the singer makes music, and music is inadequate, so he makes his music speak. Feeling is stripped to its essence, and the feeling is the whole story. And, if that feeling seems inelegant, the singer’s immaculately disciplined performance makes his representation of turmoil unmistakably styled and stylish—the brink of frenzy as a style unto itself.”
Dezembro 29, 2006 às 12:31 pm
li. muito bom. valeu pela dica =)