As seções de anúncios pessoais de jornais e revistas são uma vitrine para o desespero humano. Atrás de cada uma daquelas mensagens telegráficas – “HOMEM, 40, QUER TE FAZER SORRIR”, “DIVORCIADA PROCURA NOVO AMOR” – há um pervertido incurável em busca de sua alma-gêmea, uma encalhada disposta a tudo em troca de qualquer coisa. Não importa o veículo em que sejam publicados, esses anúncios seguem apenas uma regra: a auto-promoção.
Não na London Review of Books. A sisudíssima revista literária britânica tem os classificados pessoais mais brutalmente honestos do mundo – talvez os únicos. Uma rápida olhada na edição atual revela a generosa dose de auto-ironia dos futuros amantes que escrevem para a seção:
Em testes de laboratório, este anúncio cegou sete ratos. Os três remanescentes, no entanto, desenvolveram poderes extra-sensoriais e a capacidade de levitar. Você pode também, se escrever para este biológo ex-comungado e criador de ratos videntes (H, 39) na caixa postal 24/01. Ou você pode apenas ficar cega. As chances são de 70-30, mas você não pode deter o avanço.
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Pé-no-saco e irracional M (52). Muito provavelmente igualzinha a sua mãe. Caixa postal no. 24/07.
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Meu terapeuta sugeriu que eu colocasse este anúncio. Mulher, 43. Nada maníaca, a despeito do que o medo de espaços abertos, da cor vermelha, do som da chuva, embalagens plásticas, barbas, percussionistas, pássaros canores e cereais possa sugerir. Caixa postal no. 01/03.
A seção faz tanto sucesso na Inglaterra que os melhores anúncios publicados desde sua criação, em 1998, foram reunidos no livro They call me naughty Lola – Personal ads from the London Review of Books. O título se refere à primeira frase de um dos mais memoráveis textos já veiculados na revista.
A compilação mostra como pode ser dura a vida amorosa dos cultos e literatos. Uma das leitoras conta ao NY Times que um encontro desastrado a levou a publicar um anúncio procurando especificamente por homens “que não batizem seus genitais em homenagem a chanceleres alemães (…) nem mesmo o Príncipe Chlodwig zu Hohenlohe-Schillingfürst, não importa o quão admirável tenha sido a independência que deu aos secretários de Estado”.
É claro que, no fundo, o humor auto-depreciativo é apenas uma forma mais elaborada e defensiva de auto-promoção. Ridicularizando a si mesmos e aos clichês dos anúncios pessoais, os leitores tentam se preservar de eventuais fracassos. Mas os editores da LBR são otimistas: em menos de uma década, dizem, a revista já apadrinhou dois filhos e quatro casamentos (um deles, infelizmente, deu em divórcio).
3 Comentários
Dezembro 25, 2006 às 6:42 pm
tem um fotógrafo chamado Jeffrey Aaronson que ligou para anunciantes de classificados do gênero e chamou-os para serem retratados em estúdio. e foi além: gravou as pessoas lendo seus próprios anúncios, e, na exposição, disponibilizou o áudio em headphones instalados junto a cada retrato. assustador.
Dezembro 25, 2006 às 6:48 pm
4 casamentos e 2 fodas em menos de dez anos não é exatamente ser bem sucedido…
Dezembro 25, 2006 às 6:54 pm
Se você considerar que a maioria dos anunciantes já dobrou o Cabo da Boa Esperança, não é uma marca tão ruim.