Novembro 27, 2006...10:38 pm

A última cafajestagem de Jece, o Valadão

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Jece Valadão

Depois da morte de Robert Altman e Philippe Noiret, foi a vez de Jece Valadão, o cara mais durão do cinema nacional, entrar pelo cano eterno, aos 76 anos de idade. O Demo deve estar produzindo um longa metragem. Ou será Deus? A julgar pela trajetória de Valadão, que morreu de insuficiência respiratória hoje em São Paulo, as duas possibilidades são plausíveis.

O ator, que foi desta para uma melhor sem saber fritar um ovo (“minhas mulheres sempre fizeram isso pra mim”) e que tinha mais de 100 filmes e 50 peças de teatro nas costas, ficou marcado por ser um sexista confesso, chauvinista convicto, o irascível paradigma do macho. Há dez anos, porém, o Jece Valadão que “bebia uma garrafa de uísque de uma sentada”, o ídolo máximo dos fãs das “comédias urbanas eróticas baseadas na literatura“, o eterno mau caráter, morreu pela primeira vez para renascer evangélico.

A grande fera foi domada pelo Senhor quando teve um pedido bastante mundano atendido pelos céus. Ele conta em um testemunho emocionado que, à beira da bancarrota e já tentado à conversão por um pastor evangélico, mandou um recado ao Filho do Homem em um pedaço de papel que foi parar em uma dessas fogueiras santas: “Jesus, estou enfrentando um problema muito sério de umas duplicatas no Bamerindus. Resolve-o”, ordenou. Foi batata. Assembléia de Deus nele.

Jece parou de bater na mulher, abandonou a bebida e se arrependeu de ter sido pai ausente de seus nove filhos (ele reconheceu a paternidade de apenas quatro deles, os cinco demais foram criados por outros homens). Tornou-se célebre o episódio em que Valadão presenteou seu filho de 7 anos com um fusca para compensar a falta de carinho. A conversão, no entanto, não impediu o ator de gravar, antes de morrer, algumas cenas de “A Encarnação do diabo”, o novo filme de José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

De qualquer maneira, aqui preferimos lembrar de Jece não como um arrependido, mas sim como “O Mau Caráter” ou como o Miro de “Rio 40 graus“. Neste espaço, ele será cultuado para sempre pelo imortal axioma de Valadão: “Quanto mais independente, mais fácil é a mulher”.

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