Novembro 15, 2006...3:01 pm

Jornalismo literário possível

Ir aos comentários

MitchellO velho Novo Jornalismo é o principal responsável pelo atual status de arte desfrutado por certos tipos de reportagem, mas também criou um dilema para os jornalistas, essas pobres criaturas já naturalmente tão complicadas.

Gay Talese, Joseph Mitchell, Norman Mailer e seus colegas de método passavam meses – anos até – apurando e redigindo obras que, uma vez acabadas, mais pareciam volumes de ficção do que matérias jornalísticas. A leitura desses e outros autores, hoje, pode despertar a falsa impressão de que uma boa reportagem, bem escrita e criativa, exige uma longa gestação.

Nada poderia estar mais longe da verdade – e acho que, cada vez mais, o destino desse anacrônico veículo de comunicação feito de papel e tinta chamado jornal depende da compreensão disso.

Sempre que esse assunto surge em discussões com os colegas – geralmente entre o terceiro e o quarto chope – cito como exemplo uma matéria que li no New York Times há anos, sobre um monge budista que tem a bolsa roubada durante uma visita à cidade.

Como não guardei a matéria na época e jamais a encontrei de novo, nunca conseguia explicar direito porque gostava tanto dela e sequer podia provar que não estava simplesmente inventando a história toda (o que seria bem possível, afinal, já na altura do sexto chope).

Mas hoje, numa busca aleatória no Google, finalmente topei com a dita cuja outra vez. É preciso se cadastrar no site para ler o original, então, para facilitar, segue uma tradução apressada da matéria. O autor, Dan Barry, escreve duas vezes por semana a coluna “About New York”, sobre o cotidiano da cidade.

A lição de um monge da floresta na selva de Nova York

Dan Barry, 31/03/04

mongeA bolsa roubada não continha muito em termos de valor material. Mas sua ausência súbita perturbou profundamente o monge budista vitimado, por isso a polícia foi chamada à cena do crime: um Starbucks na opulenta Trump Tower, na Quinta Avenida.Um policial num abrigo de softball sentou-se para tomar o depoimento do homem alto de hábito marrom, cujo café descafeinado, sem leite, esfriava. Perguntas de rotina provocavam respostas complicadas. Por exemplo, o nome da vítima era Venerável Kassapa, mas Venerável é uma forma de tratamento, não um primeiro nome.”Sou um monge budista”, confidenciou o homem de hábito. “Caso você esteja imaginando”.

“Percebi”, disse o policial, gentilmente. “Sei como é”.

Esta é uma história simples, que não é tão simples, sobre um monge, um furto e redenção ao estilo de Nova York.

Venerável Kassapa, de 41 anos, é um monge da floresta no Sri Lanka. Normalmente, vive sozinho ou com alguns outros monges em casebres feitos de pedra, onde depende da caridade da vizinhança. Faz uma refeição completa por dia, não carrega dinheiro e devota a maior parte de sua vida celibatária à meditação, à contemplação e ao estudo de textos budistas. As pessoas geralmente se curvam perante ele.

Às vezes, viaja para outros países e fala a grupos muito pequenos sobre budismo. Nas últimas semanas, esteve na área de Nova York, patrocinado pela Sociedade Nova-Iorquina de Cingaleses Unidos.

Na manhã de segunda-feira, sentado sozinho num banco de pedra em frente ao Hotel Plaza, ele recordava como, quando era garoto em Londres, desiludiu-se com o mundo. “Eu queria encontrar um caminho para longe do desconforto e da inquietação”, disse. “Para longe do sofrimento”.

A luta de sua mãe contra uma doença pode tê-lo impelido ao recolhimento; ele não tem certeza. Mas sabe que os fatores que o conduziram a um templo budista, aos 13 anos, incluíam os seguintes: o interesse da mãe por filosofia transcendental e seu próprio interesse por um programa de televisão popular da época, “Kung Fu”.

Quando perguntou a um dos monges do templo se eles ensinavam artes marciais além de budismo, lembra, o monge riu. “Aqui nosso forte não é o corpo”, o monge contou ao garoto. “Nosso forte é a mente”.

Aos 14, ele se tornou um monge noviço e se mudou para o Sri Lanka; aos 20, foi ordenado. “E nunca, nunca me arrependi dessa decisão”, disse.

Com o sol escorregando por trás do Plaza, Venerável Kassapa concordou em dar uma caminhada para tomar uma xícara de café no Starbucks da Trump Tower. Descendo a Quinta Avenida em seu hábito de pano simples, uma simples bolsa de pano apertada entre os dedos, ele era um personagem fora de contexto: um estudo em tamanho natural da abnegação perambulando pelo boulevard do consumismo.

“Sou um animal fora do habitat”, disse.

monge2
Passou sob os dizeres de “Você está demitido” que enfeitam a Trump Tower e moveu-se através do lobby de mármore, aparentemente alheio ao efeito de sua presença nos outros. Enquanto a escada rolante o conduzia a um andar que recendia a café, foi perguntado se conhecia o nome Trump. “Ouvi falar dele”, disse. “É um homem muito rico”.

Venerável Kassapa sentou-se a uma mesa pequena e aceitou uma xícara de café descafeinado. Logo partilhava o que descrevia como sua “visão” para os Estados Unidos: que este grande país, pleno de energia e potencial, um dia lideraria o mundo rumo a uma admirável nova era de verdade e harmonia.

Pouco depois de sugerir que o poder americano “pode ser manipulado para o mal ou para o bem”, notou que sua bolsa de pano havia sumido da cadeira ao lado. Não sentiu raiva quando percebeu que a bolsa havia sido roubada, disse mais tarde. Apenas choque, porque coisas assim não acontecem com monges contemplativos.

“Isso é muito estranho”, não parava de dizer. “Nada assim jamais me aconteceu”.

Seguranças foram chamados, e depois dois policiais do distrito de Midtown North. Eles subiram a escada rolante e foram direto na direção do monge. Ele era fácil de reconhecer.

Um policial pôs-se a checar latas de lixo, enquanto o outro conversava com o monge. Finalmente, chegou a hora de detalhar o que havia na bolsa. Nada de dinheiro, é claro (“Não uso dinheiro”, disse o monge), mas uma lista eclética de itens diligentemente registrados pelo policial.

Entre os artigos dentro da bolsa de pano: um saco plástico branco; um telefone celular que alguém havia lhe emprestado para a visita a Nova York; uma garrafa d’água; um pouco de linha branca, que ele dá às pessoas como benção; e muitos pedaços de papel. Neles estavam escritos os nomes e números de telefone de seus colaboradores ao redor do mundo.

“Eu realmente apreciaria se vocês fizessem o máximo possível”, disse o monge ao policial. Mas o policial foi sincero com o monge. “Muitas vezes, não havendo nada de valor, eles simplesmente jogam no lixo”, disse. “Pode estar no Brooklyn, pode estar no Bronx”.

Os policiais deixaram Venerável Kassapa a contemplar sua perda, especialmente os pedaços de papel com os nomes e telefones de todos aqueles amigos. “Essa é uma lição de vida crua”, disse, o tipo de coisa “que me tornei um monge para superar”.

Desceu a escada rolante, espiou rapidamente dentro de uma lata de lixo – só por desencargo de consciência – e então parou para estudar Donald Trump, que estava de pé no saguão dos elevadores, conversando ao celular. “Nunca tinha visto um bilionário antes”, disse.

Lá fora, na Quinta Avenida, o monge da floresta expressou seu desejo de ir àquela floresta de Manhattan chamada Central Park. “Preciso respirar um pouco de ar fresco”, disse, e então se foi.

Essa poderia ter sido a conclusão da aventura nova-iorquina do monge. Mas o destino não permitiria isso.

No fim da tarde de segunda-feira, Riccardo Maggiore encontrou um saco plástico branco na entrada de seu salão de cabeleireiro, na West 56th Sreet, logo depois da Quinta Avenida. Ontem de manhã, sua mulher, Eileen, deu uma de detetive. E, antes do meio-dia, planos estavam em andamento para devolver o saco plástico – embora não a bolsa de pano – a seu dono, um monge da floresta.

Não havia muito dentro do saco. Um celular. Um pouco de linha branca. E o que a Sra. Maggiore descreveu como “um milhão de pedacinhos de papel”.

1 Comentário


Deixe uma resposta