Novembro 10, 2006...6:09 pm

Liberté, Egalité, Banlieues

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torreeiffelA França é a 6ª maior economia do mundo, possui assento no Conselho de Segurança da ONU e tem um considerável arsenal nuclear. Uma potência mundial, ninguém duvida. Entretanto, um consenso geral parece apontar que, parafraseando Marcellus, “há algo de podre no Reino da Gália”.

Os franceses vivem uma onda de pessimismo. Ano passado, a parcela de baixo de sua sociedade, em sua grande maioria filhos de imigrantes pobres e “esquecidos” pelo Estado, numa clara demonstração de insatisfação com o tratamento do governo, incendiou mais de 20 mil carros nas periferias das principais cidades. Pouco depois, grandes manifestações estudantis tomaram as ruas contra uma flexibilização das leis trabalhistas que facilitaria a contratação, mas também a demissão, de jovens até 26 anos. Além disso, a maioria da população recentemente se posicionou contra uma maior institucionalização da União Européia, negando uma constituição única ao bloco. E, por último, o maior ídolo do esporte nacional foi expulso de campo durante a derrota na final da Copa do Mundo. A impressão geral é que o país caminha a passos largos rumo ao buraco. E nada pode impedir isso.

Na verdade, a crise social e moral francesa, como não poderia deixar de ser, tem origens econômicas. E pode ser resumida em dois pontos principais: Estado gastador e burocrático e legislação trabalhista atrasada.

O Estado francês é um dos que mais gastam no mundo, ficando atrás apenas da Suécia (exemplo mais bem-sucedido de welfare state). Os gastos públicos contabilizam 54% do PIB. Um em cada quatro trabalhadores franceses é funcionário público. Um Estado oneroso, ineficiente, não é capaz de estimular a economia. Como consequência direta da incompetência estatal, o PIB per capita francês caiu, em 25 anos, da 7ª posição no ranking mundial para a 17ª. Houve uma significante perda no poder de compra francês em relação aos vizinhos europeus.

Já o desemprego, há anos, mantém-se em uma constante faixa de 8 a 10%. Entre os jovens, o número cresce, chegando a 20%. Essa, aliás, mais do que o suposto choque cultural entre formação mulçumana e sociedade laica, pode ser considerada a principal razão para os distúrbios nas periferias das metrópoles francesas.
O grande problema, aqui, é a legislação trabalhista francesa. O trabalhador francês é dos mais protegidos do mundo. Com uma jornada semanal de 35 horas (pequena se comparada com as de Itália, Espanha, Japão, Inglaterra ou Estados Unidos) e diversas garantias de manutenção do emprego, o mercado de trabalho francês é praticamente imóvel. São tão altos os impostos que os empregadores devem pagar por cada trabalhador e por eventuais demissões que não vale a pena contratar. Nesse quadro, o surgimento de pequenas e médias empresas fica sufocada. A economia perde seu dinamismo. E quem mais sofre, como sempre, é o elo mais fraco. Os jovens, principalmente os jovens de baixa renda e com má-formação escolar. Se tiver raízes árabes, então, pior ainda.

Sendo assim, existiria alguma solução para a derrocada francesa?

Para a The Economist, sim. Com nome e sobrenome. Falta, à França, uma Margaret Thatcher.

A revista britânica vê a situação da França hoje como semelhante ao caos britânico em fins da década de 70:

The country was paralysed by a sense of terminal decline. The mainstream left was beholden to its militants, union friends and class warriors. Politicians were preocupied by the distribution of wealth, not its creation. Strikes were crippling as taxes. Industrial jobs were going to lowercost countries and academic brains to America. Britain was uncomfortable about its place in the world.

A Dama de Ferro, odiada por 10 entre 10 intelectuais de esquerda, mudou-se para a Downing Street em 1979. Só saiu de lá em 1990. Nesse meio tempo, deu as mãos a Ronald Reagan, entrou em guerra contra a Argentina, atacou o sindicato dos mineradores e privatizou tudo o que foi possível

Deu certo?

Aparentemente, sim. A economia britânica de hoje é certamente muito mais dinâmica do que 3 décadas atrás e o peso da libra esterlina no mercado financeiro global parece ser a maior prova disso.

Mas nada indica que o receituário neoliberal britânico terá sucesso também no caso francês. E, considerando o forte caráter anti-globalizante e anti-capitalista da sociedade francesa, nada indica que um dia chegará a ser aplicado.

10 Comentários

  • O cenário não é igual ao de Londres no final dos anos 70. Cadê os Sex Pistols, cadê o Clash?

    Além do mais, o único neo-liberal com residência em Paris deve ser o Fernando Henrique Cardoso.

  • A França, sendo a França, não tem punks revoltados, tem diretores de cinema engajados. Fizeram uma penca de bons filmes nos últimos anos sobre essa crise socio-moral-político-econômico-etc-etc: “Caché”, “O adversário”, “A agenda”, “A cidade está tranqüila”.

    E, claro, o melhor de todos, a mais profunda análise sobre a sociedade francesa contemporânea já feita: “Zidane, um retrato do século XXI”.

    http://www.uipfrance.com/sites/zidane/

  • Caro xará,

    Estou com você em boa parte das observações. Moro em Paris, onde estou fazendo um mestrado de jornalismo, e sinto diariamente esse clima de pessimismo que você descreveu. Também fiquei impressionado ao ler a reportagem da The Economist, que, por sinal, foi escrita por uma professora minha, a Sophie Pedder, correspondente da revista aqui na França.

    Concordo com a crítica que ela faz a alguns vícios franceses, como o medo da mudança e o estado paternalista, que impedem que o país cresça a uma taxa comparável às de seus vizinhos. Como você, acho que o modelo francês se esgotou e que é necessário reformá-lo. Mas vejo com profunda desconfiança a proposta da revista, de fazer na França uma reforma inspirada no tatcherismo.

    Apesar de ser leitor assíduo da The Economist, creio que a revista se equivoca ao propor o mesmo receituário – privatização, flexibilização das leis trabalhistas, corte de gastos públicos etc. – para diferentes realidades. Recentemente, eles publicaram uma reportagem sobre as eleições brasileiras em que propunham a venda do Banco do Brasil, como forma de permitir uma queda acelerada dos juros.

    Ora, isso mostra, no mínimo que o autor da matéria está por fora do que acontece no país. Será que ele não sabe que o BB apresenta lucros crescentes, assim como a CEF, a Petrobrás e outras estatais? Vimos recentemente que o discurso do estado mínimo tem sérias limitações. Foi nesse barco que o Barão de Pindamonhangaba afundou, para o bem do Brasil.

    Para a França, a The Economist, propõe o tal “choque de gestão”, bandeira defendida pelos tucanos no Brasil e pelo candidato da direita, Nicolas Sarkozy, aqui no Hexágono. Ele pretende “reconciliar os franceses com o capital e a ambição”. Reconheço a necessidade de devolver o dinamismo perdido à economia francesa. Mas temo que este esforço acabe por anular conquistas importantes.

    Por que a França teria que se inspirar obrigatoriamente no modelo britânico? Impedir a formação de sindicatos e vender empresas públicas bem-sucedidas é a melhor solução para o país? Não poderiam os franceses se mirar no exemplo da Suécia, que soube construir um walfare state bem-sucedido, como você mesmo apontou?

    Estas são as perguntas que nós devemos nos fazer…

    Abs.

    João Rocha Lima.

  • João Francisco Pereira

    Valeu pelo comentário, xará.

    Só pra esclarecer que eu não concordo com a The Economist, não.
    A adoção dos ensinamentos neoliberais do Consenso de Washington, principalmente para nossa querida Latinoamérica, foi uma tremenda furada. Cada um na sua, já ensinava o Free.

    Tem muita coisa errada na França, mas não acho que uma Madame Thatcher seria a solução ideal. E, além do mais, os próprios franceses nunca aceitariam tal “choque de gestão” (pra usar a expressão preferida do nosso querido alckmin).

    Agora, não deixa de ser no mínimo engraçado a The Economist, bastião do conservadorismo mundial, sugerir uma solução dessas à França, país com a maior concentração de sociólogos por metro quadrado.

    A receita pra França? Não faço idéia, cara. Mas te garanto que vou tentar ligar pra Ségolène Royal assim que eu pensar em alguma coisa. Taí uma coroa que não deve ser jogada fora.

    E, Bernardo, olha os modos. Vou sugerir a esse jornal marrom que coloque o tio Crivella de novo no seu caminho – ô Bernardo, aquele seu amigo, Bernardo.

  • “Cada um na sua, já dizia o Free”???

  • Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum. Free, questão de bom senso.

  • eu entendi, só nao acreditei que vc foi capaz de escrever isso…hahahhahaha!

  • tive que escrever aqui só pra discordar do “mais profunda análise sobre a sociedade francesa contemporânea já feita”… ô filminho chato!

  • Thaís, você não entende o Zidane.


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